sábado, 19 de setembro de 2015

Sobre jambolões, polêmica e o despertar de uma consciência ambienta

          Palmeira das Missões é uma cidadezinha incrustrada no noroeste do Rio Grande do Sul. Terra conhecida pela erva mate e em alguns aspectos pelo conservadorismo das estruturas de pensamento de grande parte da população. O que não deixa de ser um paradoxo, pois não vemos esse senso de conservação expresso, por exemplo, na preservação do patrimônio histórico, pois quase não encontramos vestígios materiais de seu passado tão rico.
          Palmeira nasceu e cresceu em meio a guerras e conflitos. A Grande Palmeira foi palco de batalhas sangrentas principalmente nas revoltas de 1893 e 1923. Também houve muito sangue derramado na formação do território, estórias (ou histórias) correm sobre coronéis que compravam terras, matavam as pessoas e ficavam com as terras e o dinheiro pago. O que é fato é que conflitos agrários sempre colocaram em lados opostos os pequenos e os grandes e que uma atmosfera belicosa fez do palmeirense “gente de faca na bota”.
          O tempo passou e a Palmeira diminuiu de tamanho, mas em nada diminuiu o gosto desse povo pela polêmica. Polêmica que, diga-se de passagem, em diversos momentos não passa apenas disso, pois na ânsia de se posicionar e opinar (está muito na moda hoje em dia), muitas pessoas não conseguem fazer o exercício filosófico de se colocar em um ponto em que consiga avaliar as coisas como realmente são. Metem todo tipo de argumento no meio da celeuma, gerando uma sopa ideológica bem difícil de digerir.
          A última polêmica que vem agitando a cidade gira em torno de duas belas árvores de jambolão que vivem há mais de 20 anos no Calçadão. As árvores, seguindo o curso da natureza, florescem e frutificam. As frutas, saborosas, caem em grande quantidade e se acumulam na calçada sendo pisoteadas pelos transeuntes e pintando de roxo a calçada e os calçados das pessoas.  Um grupo de comerciantes alega que este fato prejudica a atividade comercial e que os frutos pisoteados se tornam perigosos para quem passa, pois podem ocasionar uma queda. Houve relatos de que centenas de pessoas teriam caído, mas nada foi confirmado e uma única pessoa veio dizer que sim, tinha caído por causa do jambolão. Os defensores do corte vieram a público pedir apoio para o assassinato dos jambolões, fato que gerou a reação oposta: surgiram os defensores dos jambolões, entre os quais, orgulhosamente me incluo.
          Juntou gente de todo tipo para defender as árvores: estudantes, professores, agrônomos, biólogos, lideranças de bairro, políticos, comerciantes, moradores do Calçadão e gente comum mesmo que acha um absurdo cortar as árvores alegando a “sujeira” dos frutos. Surgiram alternativas técnicas para essa questão, que vão da poda a aplicação de hormônios que inibiriam que as plantas entrassem na fase reprodutiva.  Os ânimos se exaltaram nas redes sociais, teve gente que não está acostumada a ser contrariada que xingou os acadêmicos da Biologia e deslegitimou o seu direito de manifestação. Foi feita uma música, panelaço, barulho e teve muita discussão em torno da importância da preservação das árvores, afinal, elas só trazem transtornos durante 20 dias no ano. No mais, é só sombra, oxigênio e alegria para os pássaros e morcegos que vivem nelas ( e pra gente também, pois aquele que nunca buscou abrigo naquelas sobras no verão escaldante que se acuse !!).
          Mas a polêmica não parou por aí. Por haver entre os manifestantes pró-jambolões gente com posicionamento político ideológico claro, incluindo alguns políticos de determinado partido, houve quem tentou dizer que toda a manifestação, as discussões e a mobilização não passavam de uma jogada política. O mais triste foi ver que pessoas muito inteligentes cairam nessa; gente de notada atuação em prol da natureza na cidade ao invés de pensar nas árvores, se contaminou pelo veneno demagógico e passou a atacar aqueles que lutam pelo mesmo objetivo. Mas o veneno não foi mais forte do que o despertar da consciência do povo.  O movimento “Salve o Jambolão” vai muito além da luta pela preservação destas duas árvores, ele fez vir à tona diversos aspectos ligados às questões ambientais que não eram discutidos nunca. Talvez resida aí o medo e a necessidade de ridicularizar os que lutam pelas árvores.
          Os que falam sobre a preservação das matas, sobre a produção excessiva de lixo, sobre a necessidade de preservação dos banhados, sobre os animais domésticos e silvestres e sobre o enorme problema que a exposição aos agrotóxicos causa são taxados e de ecochatos, malucos e gente que não tem o que fazer. Entretanto, estas pessoas são as que estão fazendo a sua parte para a preservação da casa de todos nós, que é o planeta Terra.  Ensinamos nossas crianças nas escolas que temos que “preservar o meio ambiente”, entretanto, alegando que existe um movimento político por trás da luta pelos jambolões, vamos dar nosso aval para que se cortem essas duas grandes árvores de sombra da Avenida Independência ?
          Enfim, luta continua, na reunião do COMDEMA da última segunda-feira a discussão foi bastante intensa e outra vez tivemos episódios bem lamentáveis. O porta-vos dos cortadores chamou o biólogo que fez a fala em defesa das árvores de palhaço, moleque, politiqueiro e etcétera e chamou os manifestantes de "desocupados". A maioria dos conselheiros, inclusive o que representa a administração do município, é a favor do corte e está com os ouvidos fechados para os argumentos técnicos que atestam que não precisamos abrir mão das árvores por causa dos frutos. O jogo de forças é bastante desigual, e prevemos que não será fácil manter nossas queridas árvores em pé.  
          Não sou representante do movimento, apenas faço parte dele por acreditar que não existe nenhum argumento definitivo que justifique a supressão dos jambolões. Fui, ironicamente, chamada de “advogada dos jambolões” e quero deixar claro que isso em nenhum momento me agride. Sempre lutei por causas justas e é assim que eu vivo; não me escondo atrás de subterfúgios e não fico em cima do muro. Resumindo: não sou covarde.  

          Espero que o nosso movimento sirva de reflexão para a população. Nos achamos tão superiores a tudo e a todos os outros animais e esquecemos que somos a espécie mais corrosiva que já existiu neste Planeta. Extinguimos animais, desviamos e secamos mananciais, matamos por diversão e compramos coisas de que não precisamos e que demorarão séculos para se degradar no ambiente. Poluímos, desmatamos e rimos daqueles que nos alertam que vamos ficar sem água e que estamos ficando doentes por comer tomates lustrosos de veneno. Estamos acabando com os elementos que são essenciais a nossa própria sobrevivência e esquecemos que a Terra continuará, nós é que morreremos. O tempo da humanidade não é nem um segundo para o planeta, somos uma pequena praga que está dando conta de sua própria destruição. 

Um comentário:

  1. Há tantos críticos nesta cidade que logo nem precisaremos mais pensar por nós mesmos, visto que todos tiram suas próprias conclusões sem se inteirar dos fatos. Nunca ouvi relatos de pessoas que caíssem por causa dos frutos, mas pelos buracos das calçadas e das ruas que não apresentam condições de tráfego.

    ResponderExcluir