Palmeira das Missões é uma cidadezinha incrustrada no
noroeste do Rio Grande do Sul. Terra conhecida pela erva mate e em alguns
aspectos pelo conservadorismo das estruturas de pensamento de grande parte da
população. O que não deixa de ser um paradoxo, pois não vemos esse senso de
conservação expresso, por exemplo, na preservação do patrimônio histórico, pois
quase não encontramos vestígios materiais de seu passado tão rico.
Palmeira nasceu e cresceu em meio a guerras e conflitos. A
Grande Palmeira foi palco de batalhas sangrentas principalmente nas revoltas de
1893 e 1923. Também houve muito sangue derramado na formação do território,
estórias (ou histórias) correm sobre coronéis que compravam terras, matavam as
pessoas e ficavam com as terras e o dinheiro pago. O que é fato é que conflitos
agrários sempre colocaram em lados opostos os pequenos e os grandes e que uma
atmosfera belicosa fez do palmeirense “gente de faca na bota”.
O tempo passou e a Palmeira diminuiu de tamanho, mas em nada
diminuiu o gosto desse povo pela polêmica. Polêmica que, diga-se de passagem,
em diversos momentos não passa apenas disso, pois na ânsia de se posicionar e
opinar (está muito na moda hoje em dia), muitas pessoas não conseguem fazer o
exercício filosófico de se colocar em um ponto em que consiga avaliar as coisas
como realmente são. Metem todo tipo de argumento no meio da celeuma, gerando
uma sopa ideológica bem difícil de digerir.
A última polêmica que vem agitando a cidade gira em torno de
duas belas árvores de jambolão que vivem há mais de 20 anos no Calçadão. As
árvores, seguindo o curso da natureza, florescem e frutificam. As frutas,
saborosas, caem em grande quantidade e se acumulam na calçada sendo pisoteadas
pelos transeuntes e pintando de roxo a calçada e os calçados das pessoas. Um grupo de comerciantes alega que este fato
prejudica a atividade comercial e que os frutos pisoteados se tornam perigosos
para quem passa, pois podem ocasionar uma queda. Houve relatos de que centenas
de pessoas teriam caído, mas nada foi confirmado e uma única pessoa veio dizer que sim, tinha caído por causa do jambolão. Os defensores do
corte vieram a público pedir apoio para o assassinato dos jambolões, fato que
gerou a reação oposta: surgiram os defensores dos jambolões, entre os quais,
orgulhosamente me incluo.
Juntou gente de todo tipo para defender as árvores:
estudantes, professores, agrônomos, biólogos, lideranças de bairro, políticos, comerciantes, moradores do Calçadão e
gente comum mesmo que acha um absurdo cortar as árvores alegando a “sujeira”
dos frutos. Surgiram alternativas técnicas para essa questão, que vão da poda a
aplicação de hormônios que inibiriam que as plantas entrassem na fase
reprodutiva. Os ânimos se exaltaram nas
redes sociais, teve gente que não está acostumada a ser contrariada que xingou
os acadêmicos da Biologia e deslegitimou o seu direito de manifestação. Foi
feita uma música, panelaço, barulho e teve muita discussão em torno da
importância da preservação das árvores, afinal, elas só trazem transtornos
durante 20 dias no ano. No mais, é só sombra, oxigênio e alegria para os
pássaros e morcegos que vivem nelas ( e pra gente também, pois aquele que nunca buscou abrigo naquelas sobras no verão escaldante que se acuse !!).
Mas a polêmica não parou por aí. Por haver entre os
manifestantes pró-jambolões gente com posicionamento político ideológico claro,
incluindo alguns políticos de determinado partido, houve quem tentou dizer que
toda a manifestação, as discussões e a mobilização não passavam de uma jogada
política. O mais triste foi ver que pessoas muito inteligentes cairam nessa; gente
de notada atuação em prol da natureza na cidade ao invés de pensar nas árvores,
se contaminou pelo veneno demagógico e passou a atacar aqueles que lutam pelo
mesmo objetivo. Mas o veneno não foi mais forte do que o despertar da consciência
do povo. O movimento “Salve o Jambolão”
vai muito além da luta pela preservação destas duas árvores, ele fez vir à tona
diversos aspectos ligados às questões ambientais que não eram discutidos nunca.
Talvez resida aí o medo e a necessidade de ridicularizar os que lutam pelas
árvores.
Os que falam sobre a preservação das matas, sobre a produção
excessiva de lixo, sobre a necessidade de preservação dos banhados, sobre os
animais domésticos e silvestres e sobre o enorme problema que a exposição aos agrotóxicos
causa são taxados e de ecochatos, malucos e gente que não tem o que fazer.
Entretanto, estas pessoas são as que estão fazendo a sua parte para a
preservação da casa de todos nós, que é o planeta Terra. Ensinamos nossas crianças nas escolas que
temos que “preservar o meio ambiente”, entretanto, alegando que existe um
movimento político por trás da luta pelos jambolões, vamos dar nosso aval para
que se cortem essas duas grandes árvores de sombra da Avenida
Independência ?
Enfim, luta continua, na reunião do COMDEMA da última
segunda-feira a discussão foi bastante intensa e outra vez tivemos episódios
bem lamentáveis. O porta-vos dos cortadores chamou o biólogo que fez a fala em
defesa das árvores de palhaço, moleque, politiqueiro e etcétera e chamou os manifestantes de "desocupados". A maioria dos
conselheiros, inclusive o que representa a administração do município, é a
favor do corte e está com os ouvidos fechados para os argumentos
técnicos que atestam que não precisamos abrir mão das árvores por causa dos
frutos. O jogo de forças é bastante desigual, e prevemos que não será fácil
manter nossas queridas árvores em pé.
Não sou representante do movimento, apenas faço parte dele
por acreditar que não existe nenhum argumento definitivo que justifique a
supressão dos jambolões. Fui, ironicamente, chamada de “advogada dos jambolões”
e quero deixar claro que isso em nenhum momento me agride. Sempre lutei por
causas justas e é assim que eu vivo; não me escondo atrás de subterfúgios e não
fico em cima do muro. Resumindo: não sou covarde.
Espero que o nosso movimento sirva de reflexão para a
população. Nos achamos tão superiores a tudo e a todos os outros animais e
esquecemos que somos a espécie mais corrosiva que já existiu neste Planeta. Extinguimos animais, desviamos e secamos mananciais, matamos por diversão e compramos
coisas de que não precisamos e que demorarão séculos para se degradar no
ambiente. Poluímos, desmatamos e rimos daqueles que nos alertam que vamos ficar
sem água e que estamos ficando doentes por comer tomates lustrosos de veneno. Estamos
acabando com os elementos que são essenciais a nossa própria sobrevivência e
esquecemos que a Terra continuará, nós é que morreremos. O tempo da humanidade
não é nem um segundo para o planeta, somos uma pequena praga que está dando
conta de sua própria destruição.
Há tantos críticos nesta cidade que logo nem precisaremos mais pensar por nós mesmos, visto que todos tiram suas próprias conclusões sem se inteirar dos fatos. Nunca ouvi relatos de pessoas que caíssem por causa dos frutos, mas pelos buracos das calçadas e das ruas que não apresentam condições de tráfego.
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