Era uma vez uma terra onde viviam milhares de povos indígenas.
Um dias chegaram caravelas e homens barbudos e fedidos que disseram que aquela terra era de um rei que estava lá do outro lado do oceano.
Logo de início se desinteressaram por ela pois havia por aqui mais gente brava e mato do que riqueza para ser retirada sem esforço.
O rei então chamou alguns homens com dinheiro e lhes cedeu partes do litoral para que povoassem e explorassem impedindo que outros reis tomassem posse de tais terras. O sistema não deu lá muito certo mas aos poucos mais gente foi chegando e mais índios foram morrendo de doença, tristeza ou bala.
Anos e anos se passaram e os homens de fora viram que a terra era boa e decidiram plantar, mas não queriam trabalhar. Trouxeram então gente de pele escura dentro de navios, acorrentada e chicoteada e disseram que eram donos delas também. O suor e o sangue dos negros ajudaram a terra a prosperar e assim seguiu o país produzindo ouro, cana, algodão, fumo e café.
As riquezas não ficavam por aqui e as famílias ricas sonhavam com o luxo da Europa. Algumas dessas famílias foram ficando cada vez mais ricas e foram dominando extensões de terras cada vez maiores.
Decidiram então que não queriam mais ser submissos ao rei lá do outro lado do oceano mas, na prática, pouca coisa mudou. Estas famílias que tinham dinheiro e terras queriam sim era ter poder de mando, e então um tempo depois se uniram com militares que estavam descontentes e marcharam até o Palácio da Justiça proclamando então o fim da monarquia.
Era o ano de 1889 e essas famílias ricas e com terras estava muito putas porque tinham perdido seus escravos no ano anterior e porque queriam espaço no governo e maiores possibilidades de acumular dinheiro e poder.
Inaugurava-se então a nossa República, que nasceu suja e cresceu corrupta, com acordos e degolas, cabrestos e coronéis. Aos trancos e barrancos a República seguiu, sob as botas das mesmas oligarquias agrárias de sempre, com os pretos e pobres e trabalhadores braçais nas mesmas posições de sempre, não havia interesse em ajudar essa gente. Vamos empurrá-los para as periferias, vamos fazer das grandes cidades cópias da Europa e fazer de conta que aqui não tem preto nem pobre. Vamos trazer europeus para branquear essa gente !!
O tempo foi passando e tomou força no mundo um movimento que dizia que as coisas não deveriam ser assim. Que, na verdade, estava tudo errado e que o povo que sofre e trabalha deve ter direitos, que as terras que foram acumuladas devem ser divididas com quem não tem terra para plantar. As grandes famílias, que não queriam dividir suas terras nem seu dinheiro nem seu espaço não gostaram. Agora elas já estavam envolvidas na política e então decidiram novamente ir até os militares fazer acordos. E assim foi feito.
Com a desculpa de proteger a democracia contra o golpe comunista o lugar dos índios que agora se chamava Brasil passou a ser governado por militares. As liberdades do povo foram aos poucos sendo cerceadas até que se proibiu de falar, cantar ou dizer qualquer coisa que fosse contra esse governo. Voltaram os grilhões e a dor dos jovens espancados e estuprados está até hoje marcado em nós. Suas mães ainda choram por corpos desaparecidos e esta vergonha nos mareja a alma.
Uma luz brilhou... no fim to túnel, e a democracia, de pernas bambas e vacilante, se levantou.
Séculos se passaram desde que os barcos dos homens do rei chegaram. Foi escrita uma nova Constituição e as forças que diziam que deveria haver uma melhor distribuição da renda, que deveríamos respeitas os indígenas e suas terras, os quilombolas e suas terras, as mulheres, as crianças, os que não se enquadram no padrão, foi tomando cada vez mais força na liberdade. As pessoas se agrupavam em turmas chamadas de partidos políticos e mesmo aquelas que não pertenciam aquelas famílias com terras e dinheiro podiam entrar em um e ter ideias.
Surgiu então um líder, que não era de nenhuma família rica ou com terras, que começou a falar e tocar o povo com suas ideias. Ele defendia os trabalhadores e com sua fala que conquistava quem queria ver o lugar chamado Brasil mais igualitário e democrático, ele foi eleito presidente do Brasil. Com uma maioria esmagadora de votos, demonstrando que o povo pobre, preto, da favela, da fábrica, estava cansado de ser governado por famílias ricas e com dinheiro, que nada sabiam da vida de quem não tinha casa, nem água, nem luz.
E foi a primeira vez, em séculos de história, que surgiram políticas para ajudar o povo a ter acesso direto a um pouco da riqueza gerada no país. Foram criados programas para as pessoas não passarem fome, para terem casa, para terem luz, gaz de cozinha, ou seja, dignidade. Criaram mecanismos chamados cotas para que aquela gente que descendia dos africanos trazidos a força pudessem estudar e chegar na universidade junto com os filhos das famílias ricas e com terra. O povo se agradou e houve mais governos assim, mudando em apenas 13 anos a cara desse lugar chamado Brasil.
Mas, como era de se esperar, as famílias ricas e com terra não se conformaram com isso. Voltaram com novas roupas e discursos, mas com a mesma intenção: voltar a dominar o lugar chamado Brasil. Elas não querem saber dessa coisa de gente pobre e índio na universidade. Elas espancam essas pessoas porque são gente indesejada para elas. Elas não gostam de gente com mãos sujas de terra e cheiro de suor.
Tentaram, outra vez (como são previsíveis !!!) chamar os militares, mas não deu. Os militares não querem mais se sujar com sangue e com lágrimas, eles aprenderam a lição.
Então as famílias ricas e com terras articularam estratégias que se revestem de legalidade para dar um golpe e retirar do poder a primeira mulher que foi eleita pelo povo presidenta do Brasil. Essa mulher se chama Dilma, ela não é uma mulher bonita no padrão que é imposto às mulheres. Ela é uma senhora, mãe e avó que nos últimos anos vem sendo xingada dos palavrões mais feios por pessoas estúpidas que incentivam até crianças pequenas a xingá-la. Ela já teve um câncer e mesmo em meio a toda essa maldade continua forme e forte, representando com altivez todas as mulheres guerreiras desse lugar grande e rico chamado Brasil.
Não sei como vai acabar essa história. Mas sei como gostaria que acabasse. Gostaria que a democracia, tão jovem, tão fraca, conseguisse se manter em pé para que o lugar chamado Brasil conseguisse vencer as barreiras que se impõem ao seu desenvolvimento. Para que as terras fossem melhor dividas e pudesse haver mais pequenas propriedades produzindo comida e não ração. Mais médicos e médicas negras e indígenas e travestis. Mais amor e mais beleza, mais crianças felizes e mais mulheres em cargos de comando e decisão.
Queria que o povo entendesse que estas famílias ricas e com terras, que mandaram no Brasil desde sempre, não se interessam pelo bem comum, somente se preocupam com o seu próprio bem e com a manutenção de seus próprios privilégios, como sempre foi, desde 1500.